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Alberto Guzik sobre Vanessa
“A primeira vez que vi Vanessa Bumagny, integrava o elenco de “De Profundis”, de Ivam Cabral, lá nos Satyros, em 2001 ou 2002. Não esqueci aquela figura esguia, que fazia uma participação marcante no drama dirigido por Rodolfo García Vázquez. Mas não conhecia a artista que habitava aquela figura de olhos ardentes. Alguns anos mais tarde, voltando ao palco, passei a integrar justamente o elenco dos Satyros, e então tive a chance de me aproximar de Vanessa, amiga de Ivam e Rodolfo e espectadora fiel de tudo que se faz na Praça Roosevelt.
Conheci uma mulher bela e curiosa e talentosa e exigente. Lança agora seu segundo álbum, “Pétala por Pétala”, depois do elegante e intenso trabalho de estréia, “De Papel”, em 2003. O segundo em seis anos. Pouco? Pode ser. Para qualquer um. Não para uma artista refinada, perfeccionista, rigorosa. Vanessa canta a perplexidade, o desentendimento, a sensualidade, o prazer, em resumo, o estar no mundo hoje. E dentro desse território, uma das facetas que melhor disseca é o amor. Mas não qualquer amor. Para ela, o amor é um modo real de experimentar a condição humana, uma forma, A forma de estar no mundo. Em busca desse norte (não do amor apenas, mas de sua expressão) é que ela se pauta. E sai à procura dos acordes e das palavras perfeitas para traduzir o que sente.
Um sabor tremendamente atual perpassa tudo que VB faz. Parte das bases. Tem bossa nova em seu álbum, assim como tem rumba, tango, samba, forró, música brasileira de raiz, valsa e muito mais. Tem flashes de tarde de domingo em bairro residencial tranquilo. E climas de alta madrugada devassa de promessas sussurradas. E essa riqueza toda surge temperada com o toque contemporâneo de acompanhamentos inesperados, de sincronias quebradas e refeitas. Não por acaso ela entregou a produção de seu álbum a um dos músicos brasileiros mais antenados com a modernidade da canção: Zeca Baleiro. Que fez em “Pétala por Pétala”, como faz sempre, um trabalho de jovem mestre.
VB se vale de suas próprias palavras, e também coloca em música as palavras de poetas do porte da galega Rosalia de Castro e do português Sidónio Muralha. As imagens que cria em suas letras são melodia pura. Algumas são solares: “Não sei se foi Deus quem quis / se foi destino ou acaso / o fato é eu aquele triz / ou um minuto de atraso / que fez de você meu par / foi a coisa mais feliz”. Outras, parecem noite fechada sem alvorecer: “Pelo que eu não conheço / quero o nome e o endereço da dor que vai morar comigo”. Ela dá a umas e outras, ao desespero e à alegria, a interpretação exata. A voz de Vanessa Bumagny é macia, é suave. E enganadora. Pois esconde navalhas e agulhas, plangências e pungências que retalham amorosamente as emoções de quem a ouve. Sim, a voz de VB é delicada e afiada. E sua interpretação é calculada para nunca perder nem a irônica força nem a paixão que a move e impele e a transforma numa artista que, em nosso panorama, é única.”
Alberto Guzik
Ator, escritor crítico teatral, dramaturgo, professor...
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